segunda-feira, 21 de março de 2016

Poema

Para que serve a poesia
No grande Circo Zanzi,
as palavras equilibram-se numa letra só,
fazem-te rir,
e, deslumbradas, voam para ti.

Não são palavras comprometidas
que têm as suas vidas
e as suas ocupações.
São palavras jovens,
desconhecidas,
que vieram do nada
e nada têm que fazer.
Umas curtas, outras compridas,
todas leves, voadoras, luminosas.
São palavras distraídas,
preguiçosas,
que não querem aprender
o que elas querem dizer.

Vão por aí a voar,
sem ter rumo nem sentido,
criando o seu próprio som.
Ouves? É só um rumor.
Parece um zumbido.

Por isso, não as digas, não.
Elas só falam o que não disseres.
Passam o dia à escuta
do silêncio que fizeres.

Aliás, não são palavras,
mas bolhas, grãos de ar,
tão leves como bolas de sabão.
De repente rebentam
e já não são.

E para que servem palavras
que não servem para falar?
Servem para calar.
E servem para dançar,
quando a música é boa
e as levanta no ar.

Com estas palavras
podes fazer uma magia
um encantamento,
uma oração.
Percebeste?
Com elas podes fazer chover,
amansar o vento.
Ou não.

Se quiseres, e se for esse o dia,
também podes escolher
as mais simples e as mais humildes
para fazer uma poesia.
E isso sim, elas gostam de fazer.

Para que serve a poesia?
Serve para fazer poesia.
Para o homem ser um homem.
Para o gato ser um gato.
Para a flor ser uma flor.

Não fosse ela, a poesia,
e não nascia o Sol.
Tudo o que havia
era uma noite eterna,
escura e fria.
É por haver poesia,
que os dias são dias.
Isso eu sei.
E tu, sabias?

Álvaro Magalhães

 in O brincador

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