segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Memórias que se apagam com tempo


À medida que o tempo passa, aumenta o número de inscrições na Biblioteca Andarilha. As pessoas deixaram de olhar com desconfiança a carrinha que anuncia quinzenalmente a chegada das leituras em cada localidade, e vão ao seu encontro em busca de livros e notícias da actualidade que preencham o seu dia-a-dia.
Na passada semana, na Paragem de Leitura em Mombeja, veio a D. Mariana Antónia Raimundo  decidida a realizar a sua inscrição. No momento em que nos dava os seus dados pessoais, foi atraiçoada pela memória, que lhe pregou uma partida e fê-la esquecer a sua idade. Não preocupada com tal facto, a D. Mariana deu uns passos a sua casa e trouxe consigo o seu cartão de identificação que desbloqueou aquele entorpecimento da memória.
A todas as pessoas que pelo passar dos anos, se vão esquecendo de detalhes pouco importantes, dedicamos este poema:


Louvor do Esquecimento

Bom é o esquecimento.
Senão como é que
O filho deixaria a mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros e
O retém para os experimentar.

Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre
Que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado
O discípulo tem de se pôr a caminho.

Na velha casa
Entram os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá estivessem
A casa seria pequena de mais.

O fogão aquece. O oleiro que o fez
Já ninguém o conhece. O lavrador
Não reconhece a broa de pão.

Como se levantaria, sem o esquecimento
Da noite que apaga os rastos, o homem de manhã?
Como é que o que foi espancado seis vezes
Se ergueria do chão à sétima
Pra lavrar o pedregal, pra voar
Ao céu perigoso?

A fraqueza da memória dá
Fortaleza aos homens.

Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela

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